O Rio de Janeiro guarda parte de sua memória não apenas nas fachadas de seus prédios históricos, mas também nas mesas de seus restaurantes mais antigos. Nas décadas de 1930 e 1940, o centro da cidade pulsava como o verdadeiro coração político do Brasil. Foi exatamente nesse cenário efervescente de negociações, debates e encontros boêmios que nasceu o Filé à Oswaldo Aranha, uma receita que ultrapassou o tempo e se consolidou como um dos maiores símbolos da culinária carioca.
A capital política na mesa do restaurante
A famosa receita é uma homenagem ao gaúcho Oswaldo Euclides de Souza Aranha, natural de Alegrete. Político, diplomata e ministro com forte atuação no governo de Getúlio Vargas, ele liderou a delegação brasileira na fundação da ONU em 1947. Além de sua extensa carreira política, Oswaldo Aranha tinha um paladar marcante e exigente.
O cenário para essa criação gastronômica foi o Restaurante Cosmopolita, um reduto fundado em 1926 e localizado próximo aos Arcos da Lapa. O local era tão frequentado por figuras influentes, políticos e intelectuais que acabou ganhando o apelido carinhoso de “Senadinho”.
O pedido que virou patrimônio
Como cliente assíduo do Cosmopolita, Oswaldo Aranha não costumava variar sua escolha na hora do almoço. Ele sempre solicitava a mesma combinação farta: um bife alto de filé-mignon, generosamente coberto com fatias de alho frito dourado, acompanhado de arroz branco, farofa de ovos e batatas portuguesas.
O hábito do diplomata chamou tanta a atenção dos garçons e dos donos da casa que o restaurante decidiu incorporar a refeição ao cardápio oficial. Assim, batizaram a criação com o nome do cliente ilustre. Com o passar dos anos, o tradicional Café Lamas também incorporou o prato ao seu menu a pedido do próprio político, passando a compartilhar essa memória afetiva com os cariocas.
A composição de um clássico carioca
A montagem do prato reflete a fartura típica dos restaurantes clássicos do Rio de Janeiro e a herança da culinária luso-brasileira. A base da receita é o corte de filé-mignon suculento, muitas vezes preparado em corte alto e grelhado perfeitamente na manteiga. O grande diferencial fica por conta da generosa camada de alho em lâminas crocantes que cobre a carne e espalha um aroma inconfundível pelas mesas.
Para completar a experiência, a tradição exige os mesmos acompanhamentos pedidos pelo diplomata. O arroz branco soltinho, no meu caso prefiro um arroz de brócolis, equilibra os sabores, a farofa (que pode ser de ovos ou bacon) traz textura e tradição, e as batatas portuguesas cortadas em rodelas garantem a crocância necessária. É uma combinação simples, de sabores muito definidos, que transformou a teimosia de um único cliente em um verdadeiro patrimônio cultural servido em todas as regiões do estado.




